Interior de São Paulo

Indígenas do Xingu compartilham cultura e saberes com alunos em sítio de Tatuí: ‘O professor deles é o próprio indígena’

Antes mesmo de chegar ao destino, o caminho já se transforma em parte do aprendizado. Alunos da educação infantil e do ensino fundamental participam de uma vivência que aproxima, na prática, conteúdos vistos em sala de aula da cultura indígena em um sítio de Tatuí (SP).

Em celebração ao mês dos povos originários, marcado pelo Dia dos Povos Indígenas em 19 de abril, representantes de povos do Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso, são convidados a compartilhar
saberes com as crianças, promovendo uma imersão que vai além dos livros.

A professora Ana Paula Erler acompanhou a turma do 3º ano e destacou como o contato direto com indígenas contribui para o aprendizado. Segundo ela, o conteúdo trabalhado em sala ganha novos significados quando os alunos têm a oportunidade de vivenciar, na prática, aspectos do cotidiano de uma aldeia.

“Nós trouxemos eles aqui para eles aprendam a importância de valorizar o povo originiário do nosso país. Agrega bastante. Eles ficam bastante curiosos com esse tema e a gente trazendo eles até aqui, ficam muito mais e a curiosidade traz o aprendizado. Uma vivência muito mais rica. Vão entender como funciona uma aldeia”, analisa a professora.

É nesse contato direto que acontece a troca de conhecimentos. O indígena Kanapa Kuikuro explica que o grupo visa mostrar para os estudantes costumes e práticas que fazem parte da rotina da comunidade Xingu, por meio de objetos, receitas, histórias e vivências.

“Eu mostro aqui as pinturas, como é que a gente fica na aldeia quando tem as festas a gente se veste assim, com o cocar e os brincos. Mostro objetos que a gente usa na aldeia e também a nossa alimentação. É importante fazer essa troca com as crianças para eles verem como é que a realidade na nossa aldeia. Por isso que estou mostrando essa cultura. Peço respeito pela gente, para o povo indígena”, detalha.

Do outro lado dessa troca, cada elemento apresentado carrega um significado. Pinturas corporais, objetos e hábitos revelam um modo de vida que segue presente e reforçam a importância do respeito aos povos originários.

O diretor do sítio, Flávio Medeiros, explica que a atividade acontece há 23 anos, sempre voltada a grupos escolares. Um dos diferenciais do projeto é justamente permitir que o aprendizado seja conduzido pelos próprios indígenas.

Para organizar a atividade, o projeto divide a vivência em três etapas. Primeiro, os alunos têm contato os artesanatos e objetos utilizados na aldeia. Em seguida, conhecem estilos de moradias por meio de maquetes. Por fim, participam de brincadeiras e pinturas corporais, etapa que conta também com a participação de crianças do grupo Xingu.

“Quando os alunos vêm nos livros o tema, dá impressão de que é algo que ficou lá no passado. E hoje, mesmo tendo diminuído muito, a pluralidade cultural brasileira é muito grande, essa diversidade. Aqui eles têm esse contato direto. Aqui quem vai ser o professor deles é o próprio indígena”, comenta Flávio.

Segundo o diretor, ao longo dos anos, a experiência tem marcado gerações e, em muitos casos, passou de pais para filhos.

“Como são 23 anos atendendo escolas, hoje estão vindo os filhos dos pais que já nos visitaram e eles passam para os filhos detalhes da visita e o filho revivendo tudo que ele fez. Quando passa assim, significa que marcou”, analisa.

População indígena em Tatuí
De acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 133 moradores de Tatuí se autodeclararam indígenas, o que representa 0,11% da população total da cidade, estimada em 123.942 habitantes.

Desse total, a maioria, 115 pessoas, não soube informar a qual etnia pertence, enquanto 17 declararam sua origem indígena.

Na comparação com 2010, houve um crescimento expressivo: o número de pessoas que se identificam como indígenas passou de 59 para 133, um aumento de 125,42% no período.

Fonte: G1

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