‘Robôs assassinos’ avançam na Ucrânia e mudam dinâmica da guerra contra a Rússia

Veículos não tripulados já realizam milhares de missões e permitem ataques com menor exposição de soldados na linha de frente
A Ucrânia tem ampliado o uso de robôs terrestres armados para atacar posições russas e reduzir a exposição de seus soldados na guerra. Equipados com explosivos, metralhadoras e foguetes, esses veículos já foram empregados em milhares de missões recentes na linha de frente.
Em um ataque registrado no ano passado, na região de Kharkiv, no leste do país, pequenos veículos não tripulados avançaram por um vale em direção a uma posição russa. Semelhantes a equipamentos usados em jardinagem, eles carregavam cerca de 30 quilos de explosivos cada. À medida que os dispositivos controlados remotamente se aproximavam, um drone aéreo lançou uma bomba para abrir caminho. Um dos robôs então avançou e detonou sua carga, enquanto os outros recuaram e passaram a monitorar a posição.
Em seguida, um pedaço de papelão surgiu acima de uma trincheira com a mensagem: “Queremos nos render”. Dois soldados russos deixaram o local e caminharam até as linhas ucranianas, onde foram feitos prisioneiros de guerra.
Segundo autoridades ucranianas, o episódio ilustra uma nova forma de combate que o país vem desenvolvendo. Kiev tenta ampliar o uso de sistemas não tripulados diante da escassez de tropas e da necessidade de evitar grandes perdas humanas.
O presidente Volodymyr Zelensky afirmou, na semana passada, que operações como essa demonstram a capacidade das forças ucranianas de tomar posições inimigas usando apenas sistemas automatizados.
Apesar disso, o número de soldados ainda é considerado o fator mais decisivo no campo de batalha, e um cenário em que guerras sejam travadas majoritariamente por robôs permanece distante. Ainda assim, a Ucrânia busca destacar seus avanços para mostrar a aliados ocidentais que pode continuar resistindo mesmo em desvantagem numérica.
— É melhor enviar metal do que pessoas — diz Mykola Zinkevych, tenente do Terceiro Corpo do Exército ucraniano que comandou o ataque. — A vida humana é preciosa, e robôs não sangram.

O avanço tecnológico no conflito tem sido marcado principalmente pelo uso de drones aéreos, que dominam os céus da linha de frente. Mas a Ucrânia também tem expandido o uso de sistemas não tripulados em terra e no mar.
Os robôs terrestres são mais usados para transporte de suprimentos e evacuação médica em áreas perigosas, mas vêm sendo empregados cada vez mais em ataques.
No mês passado, segundo o Ministério da Defesa da Ucrânia, mais de 9 mil missões foram realizadas com veículos terrestres não tripulados equipados com explosivos, metralhadoras ou foguetes. Em novembro de 2025, haviam sido cerca de 2.900 operações desse tipo, que eram raras e experimentais um ano antes.
Esses veículos são mais lentos e visíveis do que drones aéreos, o que os torna mais vulneráveis. Em geral, operam por cerca de 24 horas antes de ficarem sem bateria ou serem destruídos. Em ações para limpar trincheiras, ainda é necessário o envio de soldados para manter a posição ou substituir equipamentos.
Por outro lado, conseguem transportar cargas explosivas maiores e oferecem uma plataforma mais estável para disparo de armas.
Um programa militar ucraniano permite que soldados adquiram equipamentos por meio de um sistema interno semelhante a plataformas de comércio eletrônico. Atualmente, há sete modelos de robôs terrestres disponíveis, dentro de um universo de cerca de 470 tipos de drones.
Zelensky também destacou o uso dessas tecnologias em um vídeo divulgado na semana passada, no qual aparece ao lado de robôs, drones e mísseis. A iniciativa faz parte da estratégia de promover a indústria de defesa ucraniana e buscar acordos com outros países.
Ao mesmo tempo em que pede apoio militar, o governo tenta reforçar a imagem de que pode contribuir para a segurança de aliados.
Para Ihor Fedirko, diretor-executivo do Conselho da Indústria de Defesa da Ucrânia, o diferencial não está apenas na tecnologia, mas na forma como ela é empregada.
— Mesmo com sistemas avançados, o fator-chave é o uso tático — afirma. — É isso que a Ucrânia pode oferecer.
Antes do ataque em Kharkiv, o Exército ucraniano havia sofrido baixas ao tentar tomar a trincheira ocupada por forças russas, segundo Zinkevych. O uso de robôs passou então a ser ampliado, e o sucesso da operação levou outras unidades a adotar táticas semelhantes.
De acordo com o tenente Volodymyr Dehtyarov, da Guarda Nacional, o avanço está mais relacionado à adaptação do que a novas tecnologias.
— Nada fundamentalmente novo surgiu, mas há novas formas de empregar esses sistemas — explica.
As operações têm se tornado mais complexas. No fim de fevereiro, soldados russos ocuparam uma escola na cidade de Kupiansk, no leste da Ucrânia, usando o prédio como depósito de munição e base para equipes de drones. Redes foram instaladas nas janelas para impedir ataques aéreos.
Diante disso, militares ucranianos planejaram uma ofensiva com veículos terrestres não tripulados.
Um dos robôs carregava foguetes com ogivas termobáricas, eficazes em ambientes fechados. Outros levavam grandes cargas explosivas, uma delas com mais de 225 quilos.
Os veículos foram enviados durante a noite, sob uma tempestade de neve, para reduzir o risco de detecção. A operação foi conduzida remotamente, a partir de uma cidade distante da linha de frente.
Ao chegar ao local, o robô equipado com foguetes abriu fogo, forçando os soldados russos a se afastarem das janelas. Em seguida, outros dois veículos se aproximaram, entraram no prédio e detonaram suas cargas, provocando explosões na munição armazenada.
O edifício desabou com pelo menos nove soldados russos dentro, segundo militares ucranianos. Um deles conseguiu sair com vida, mas foi morto por um drone aéreo que acompanhava a operação.
Fonte: G1

